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REUNIÃO CIENTÍFICA – AGOSTO

ESCLEROPATIA COM ESPUMA PARA O TRATAMENTO DE VARIZES.

A Reunião Científica da SBACV-GOIÁS, do mês de agosto/2017, conta com a ilustre presença do nosso colega de Salvador – Bahia. Doutor Dr. Marcelo Liberato.

Difusor no Brasil de uma técnica eficaz e barata, mas ainda pouco utilizada para o tratamento de varizes, o médico angiologista Marcelo Liberato tem lutado para levar a escleroterapia ecoguiada com espuma (chamada de técnica da espuma) para o SUS em todo o Brasil. Desde 2013, ele comanda um programa pioneiro desenvolvido em parceria entre a Secretaria Municipal da Saúde e o Hospital São Rafael, que já tratou mais de 2,8 mil pessoas. Pouco invasiva e com baixo custo em relação à cirurgia, o uso da técnica em todo o Brasil esbarra na falta de um código específico sobre ela. Nesta entrevista, Liberato fala sobre as vantagens dessa técnica simples e sustentável, além das dificuldades enfrentadas para a difusão do método no país.

Quando e por quem essa técnica foi criada?

Desde meados do século passado, por volta dos anos de 1940 e 1950, que já se tenta usar a espuma de forma muito rudimentar. Não vou dizer que o italiano Lorenzo Tessari criou a técnica, mas ele a popularizou, criando um método simples, barato e reprodutível para criar a espuma. A forma encontrada por ele foi juntando duas torneirinhas, chacoalhando entre uma e outra. Quando você mistura esse líquido com ar ambiente, cria uma espuma. Ela é muito mais eficaz do que o próprio líquido para tratar vasos, por isso consegue tratar vasos grandes. Esse italiano, em torno de 2000, publicou dessa maneira, e o método se alastrou, inicialmente pela Europa, depois pela América Latina. Ela já existe bem consolidada há pelo menos 15, 20 anos.

Como ela é aplicada?

Em vez de retirarmos as varizes cirurgicamente, a inativamos, sem cortes. No ambulatório, injetamos a espuma ecoguiada tratando as varizes e úlceras venosas que são responsáveis pela baixa autoestima da pessoa e até mesmo pelo afastamento do trabalho devido a dores, inchaços, inflamação e diminuição da qualidade de vida. O benefício é o retorno rápido ou imediato às atividades.

5 milhões. Este é o número mínimo de pessoas que fazem tratamento para varizes no Brasil

Quando o senhor começou a usar esse método?

Comecei a usar essa técnica em 2009. Meu trabalho foi tentar divulgar de maneira científica, prática, capacitando colegas. Começamos a capacitar colegas em 2011 para que mais pessoas tivessem acesso. Nosso grande diferencial foi vislumbrar que essa técnica seria uma saída para ajudar milhões de brasileiros pelo SUS. Eu comecei a fazer um trabalho de pesquisa no Hospital São Rafael, pegando pessoas humildes, com feridas, comecei a utilizar a técnica e vi que ela substituía a cirurgia que eu fazia antes.

O senhor encontrou problemas no início?

Me deparei com vários problemas. Primeiro, em relação a apoio, depois da falta de uma normatização da técnica, que até hoje temos esse problema. Não tem um código específico pelo SUS para realizar a técnica no Brasil. Já tenho mais de 556 alunos no Brasil inteiro para realizar com segurança e eficácia a técnica da espuma, mas eles esbarram no mesmo problema que tive no início. Se não tem um código, uma precificação, como posso receber, comprar material e tratar os pacientes?

Já há um indicativo do Ministério da Saúde para a implantação desse código?

Estamos chegando a uma sensibilização do Ministério da Saúde. O próprio ministro (Ricardo Barros) falou no Fantástico (programa dominical de televisão) que vai pedir isso. Já mandei dois projetos para o Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS), e o ministro citou esses dois projetos na entrevista. Eles estão bem completos, falta pouca coisa. Acho que falta realmente a decisão política de estar apoiando esses programas que tanto beneficiam a população.

“Hoje tratamos 80 doentes novos por mês. Nesses três anos e meio, já tratamos mais de 2,8 mil pessoas”

Quando mandou esses projetos para o ministério?

Eu mandei em 2013 o último, e responderam em 2014 dizendo que não poderiam aceitar. Disseram que estava muito bom, até sugeriram um código de outra técnica para usar para fazer espuma.

Mas por que ainda não há um código se essa técnica é tão eficiente e barata?

O polidocanol, o líquido que usamos para fazer a espuma, é manipulado, não é produzido pela indústria. Nenhum produto manipulado tem registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Para ter, tem que ser produzido por uma indústria. Assim, qualquer projeto do Conitec tem que ter sua base de produtos com registro na Anvisa. O polidocanol já teve, até 2007, mas não tem mais. A indústria que produzia não quis competir com os laboratórios de manipulação. Por isso não criaram código. Acho que agora vai mudar essa situação. O ministro da Saúde se comprometeu em rede nacional.

A técnica da espuma é mais barata do que a cirurgia?

Custa um décimo em relação à cirurgia. Existe no Brasil uma fila grande, há décadas, de pacientes que precisam fazer uma cirurgia de varizes e não conseguem, porque a cirurgia é demorada, porque tem corte, porque necessita de anestesia, internamento, ocupação de leito hospitalar. Com a espuma a gente acaba tudo isso, consegue resolver todo esse problema no ambulatório.

“Já tenho mais de 556 alunos no Brasil inteiro para realizar com segurança e eficácia a técnica da espuma”

O resultado final da técnica da espuma é diferente da cirurgia?

O resultado é igual. A cirurgia é uma ótima opção, mas não resolve o problema do SUS. Com a espuma, o paciente não para de trabalhar, não para suas atividades, tem um pós-operatório com melhor qualidade, se queixa menos do que quando faz a cirurgia. A diferença é que, enquanto meu colega está fazendo cirurgia de duas horas ou três horas de duração nos casos mais graves, no ambulatório em duas horas eu trato seis a oito casos, enquanto ele está tratando um só, com um décimo do custo.

O senhor falou que aplica a técnica da espuma desde 2009, mas só em 2013 o serviço é fornecido pelo SUS. Antes, o serviço era pago ou o senhor bancava?

Tudo sempre foi absolutamente gratuito, nenhum paciente nunca pagou nada. Inicialmente eu tirava do bolso. Durante os cursos que aplico para difundir a técnica, se eu conseguia dez alunos e eu angariava R$ 10 mil de inscrição, pegava R$ 5 mil e comprava de material para tratar as pessoas. Depois o Hospital São Rafael me deu uma bolsa de pesquisa que dava para tratar de 10 a 15 doentes, a título de pesquisa. Em dois anos, antes do município, devo ter tratado umas 400 pessoas.

Antes da parceria entre o Hospital São Rafael e a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), em 2013, o senhor já havia tentado levá-la para a rede pública?

Em 2011, tentei várias vezes com o estado, mas não consegui. Em 2013, quando a equipe do atual prefeito (ACM Neto) assumiu, uma das atuais gestoras da Secretaria da Saúde foi quem teve visão. Ela me viu fazendo uma apresentação para ajudar um hospital do estado. Eu não tinha conseguido levar a técnica ao estado, e ela me chamou e perguntou se queria tentar pelo município, e eu falei que aceitava por qualquer canal que possa tratar as pessoas pelo SUS. A SMS fez uma contratualização com o São Rafael e virei coordenador técnico de um programa municipal de saúde pública. Dentro desse programa nós capacitamos mais de 250 profissionais já no início.

Que tipo de capacitação foi essa?

Para que o programa desse certo, eu precisava capacitar dois grupos de profissionais. O paciente não vai bater na porta do hospital para pedir ajuda. O paciente que está em Valéria, por exemplo, ele vai no posto de saúde. Então, primeiro capacitamos 250 profissionais entre técnicos de enfermagem e enfermeiros espalhados em 110 postos de saúde para fazer uma triagem dos doentes mais graves. Nesse programa só tratamos as pessoas com quadro clínico avançado. Eles fazem a primeira triagem. Depois, vem a segunda triagem com um angiologista. Os pacientes então são encaminhados para a SMS e, através da central de regulação, recebemos eles mensalmente.

Desde que começou, quantos pacientes já foram tratados?

Hoje tratamos 80 doentes novos por mês. Nesses três anos e meio, já tratamos mais de 2,8 mil pessoas. Hoje temos uma sala de 15 metros quadrados. Estamos com planejamento de ampliar a estrutura para que em 2017 tenhamos um novo centro, com um andar inteiro, com três ou quatro salas, onde nós poderemos ampliar já no início para pelo menos 150 pacientes novos por mês. A demanda é muito grande, e tem uma fila muito grande.

Então a meta para o ano que vem é quase de dobrar o número de atendimentos?

O município pediu que eu dobre o número de pacientes, mas eu estou sem espaço físico. Nosso planejamento é ampliar nosso espaço físico em 2017. O secretário me pediu para dobrar não só porque confia no meu trabalho, mas porque a secretaria fez conta e viu que é muito mais positivo do ponto de economia, de custo, de efetividade, curar as pessoas ou prevenir, curando as varizes antes que virem feridas. Assim, se evita que o paciente fique dez, vinte anos com feridas e tenha que ir duas ou três vezes por semana aos postos de saúde para fazer curativos. São pacientes que sofrem com perda de qualidade de vida infinita.

“No ano de 2015, 70 mil pessoas foram operadas. Mas temos cinco milhões para tratar, e temos mais de um milhão de pessoas com uma ferida, com uma úlcera venosa

Qual o número de pessoas que precisam de cirurgia de varizes no Brasil?

Temos, no mínimo, cinco milhões de pessoas que precisam de tratamento para varizes no Brasil. No ano de 2015, 70 mil pessoas foram operadas. Mas temos cinco milhões para tratar, e temos mais de um milhão de pessoas com uma ferida, com uma úlcera venosa. A maior parte desses pacientes com feridas são aposentados por invalidez ou afastados do trabalho. Hoje, é a nona causa em número de benefícios concedidos pela Previdência Social. Estamos muito longe de conseguir realmente ter um programa de impacto para ajudar essas pessoas que mais precisam. Através desse programa aqui em Salvador, nós viramos referência no Brasil inteiro em relação ao tratamento da doença venosa.

Além de Salvador, outras cidades já estão aplicando essa técnica no SUS?

Existem outros municípios, mas ainda são casos esporádicos. Tenho mais de 550 alunos no Brasil inteiro. Profissionais no Rio de Janeiro fizeram meu curso, em São Paulo tem profissionais querendo começar. Já saímos da inércia. Quando sair o código, vou sair ajudando o pessoal, porque já tenho know-how para explicar, do ponto de vista técnico de gestão, como montar um serviço desse.

“O polidocanol, o líquido que usamos para fazer a espuma, é manipulado, não é produzido pela indústria. Nenhum produto manipulado tem registro na Anvisa

Por que é tão esporádico?

Eu ficava me perguntando em 2009, 2010, por que ninguém estava lutando para botar isso no SUS. Aí meus colegas responderam: porque o SUS não paga isso. Se não paga, vamos lutar para que pague. Estamos hoje numa situação. Agora está próximo de conseguir aquilo que eu sonho em tantos anos, que é o código específico pelo SUS para o uso dessa técnica.

Entrevista do Dr. Marcelo Liberato ao portal A Tarde.

http://atarde.uol.com.br/bahia/noticias/1825007-marcelo-liberato-somos-referencia-no-tratamento-de-varizes-no-pais

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